Sapatinhos Grandes
" Perde-se na memória do tempo a altura em que comecei a fazer entregas ao domicílio. Actividade assaz difícil, tanto pelo que se faz – tudo, numa só noite -, como pelo que não se faz – nada, o resto do ano.
Nesses dias, em que o que há para fazer é esperar que chegue a noite em que há que fazer, costumo sentar-me no alpendre a cofiar a barba e a recordar histórias, muitas também já com barba. Lembro-me de várias, em particular
de uma que me marcou.
Certo Natal, encontrei junto à lareira não um sapatinho como é costume, mas um sapato de adulto. Era um 43 preto, novo e de homem. Fiquei baralhado. Seria uma piada de mau gosto de algum pai desgostoso comigo? Não teria a criança sequer um sapatinho?
Como não cheguei a conclusão alguma e estava com pressa decidi não deixar nada. Mas passei o ano no alpendre a pensar naquilo.
No Natal seguinte, o mistério adensou-se. Desta vez não encontrei um, mas dezenas, centenas de sapatos de adulto, homem e mulher, espalhados pelas lareiras.
Intrigante.
Se não queriam presentes, queriam o quê? Presentes maiores?
Hmmm…Duvidoso. Os presentes, como os homens não se medem aos palmos. E mesmo os homens de palmo e meio sabem-no bem.
Voltei ao Pólo Norte ainda mais desnorteado. Mas, devagar devagarinho, sapato ante sapato, lá fui desbravando caminho. Notei que os sapatos apareciam sempre em sítios onde, efectivamente, havia crianças. Todas com uma coisa em comum: problemas sérios. Ou de saúde, ou familiares, ou ambos.
Até que um dia, fez-se luz: o que aquelas crianças querem não são action men, mas homens ( e mulheres) de acção que as ajudem a crescer.
Não é um presente, mas um futuro."
Pai Natal
Nesses dias, em que o que há para fazer é esperar que chegue a noite em que há que fazer, costumo sentar-me no alpendre a cofiar a barba e a recordar histórias, muitas também já com barba. Lembro-me de várias, em particular
de uma que me marcou.Certo Natal, encontrei junto à lareira não um sapatinho como é costume, mas um sapato de adulto. Era um 43 preto, novo e de homem. Fiquei baralhado. Seria uma piada de mau gosto de algum pai desgostoso comigo? Não teria a criança sequer um sapatinho?
Como não cheguei a conclusão alguma e estava com pressa decidi não deixar nada. Mas passei o ano no alpendre a pensar naquilo.
No Natal seguinte, o mistério adensou-se. Desta vez não encontrei um, mas dezenas, centenas de sapatos de adulto, homem e mulher, espalhados pelas lareiras.
Intrigante.
Se não queriam presentes, queriam o quê? Presentes maiores?
Hmmm…Duvidoso. Os presentes, como os homens não se medem aos palmos. E mesmo os homens de palmo e meio sabem-no bem.
Voltei ao Pólo Norte ainda mais desnorteado. Mas, devagar devagarinho, sapato ante sapato, lá fui desbravando caminho. Notei que os sapatos apareciam sempre em sítios onde, efectivamente, havia crianças. Todas com uma coisa em comum: problemas sérios. Ou de saúde, ou familiares, ou ambos.
Até que um dia, fez-se luz: o que aquelas crianças querem não são action men, mas homens ( e mulheres) de acção que as ajudem a crescer.
Não é um presente, mas um futuro."
Pai Natal
3 Comments:
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